domingo, 27 de maio de 2012

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Óleo de Peroba Demóstenes. Lustra até água de cachoeira.

IV – O 3 Trabalho

Depois que eu saí do teatrinho a coisa má que me antagonizava me deu uma trégua, de modo que eu senti fome outra vez e como, milagrosamente, encontrasse dinheiro no bolso, mesmo desconfiado de alguma cilada, me dirigi a uma lanchonete e sentei no balcão para pedir um misto-quente. Realmente estava com fome, pois devorei seis sanduíches e duas cocas-cola, mas, depois de pagar a conta, passei alguns minutos jiboiando, antes de sair. Por que não saí antes? Deveria era ter saído correndo do lugar, por que um segundo antes de me por de pé, sentou ao meu lado uma loura de tirar o fôlego, que me disse: - Você faz um favor pra mim? E eu já desconfiado e com cara de choro respondi: - Faço. - Faz mesmo? - Faço. - Então vai até o outro lado da rua e entra na loja do tatuador, ele chama Marcão, e pede pra tatuar imediatamente um beija-flor. - Aonde... Eu disse temeroso. - Bem no rabo, beijando o buraco do teu cu. Você faz isso por mim, faz, pela sua Lola... - E se eu não fizer? - Aí você tem que falar com o Airton. Eu podia imaginar quem era o Airton, o negão, e assim como quem volta derrotado de uma guerra eu atravessei a rua e de cabeça baixa entrei no estúdio do Marcão e resolvi dá uma de macho, mas foi o tatuador quem falou primeiro: - É você o namorado da Lola? Eu não gostei do jeito que ele me olhou, mas resolvi ir logo ao ataque para não sair correndo ou cair no choro. - Sou eu mesmo, vim tatuar um beija-flor no rabo, beijando o meu furico, sabe como é, fiz uma promessa e promessa é dívida, eu vou logo abaixando as calças, como é? Eu não gostei do jeito que ele me olhou. Tive então que escolher a porra do desenho e só depois mostrar a bunda pra um macho, foi a primeira vez e não é nada confortável e olha que eu não tava fazendo exame de próstata. Enquanto ele tava rabiscando o desenho quis puxar conversa comigo, que utilizava uma técnica extraordinária de tão rápida e acabou perguntando a quanto tempo eu namorava a Lola. Desconversei e disse: - Trabalha calado e faz logo a porra desse desenho. Ele obedeceu, mas quando terminou ainda teve a ousadia de me perguntar se eu queria tirar uma foto; porém bastou meu olhar de assassino para que o infame se calasse. Eu então me vesti e ele disse: - É trezentas pila a sessão, a técnica é japonesa... Já tá quase... - Trezentas pilas uma porra. Eu pago trinta e dê-se por satisfeito. Eu só tinha trinta reais no bolso. - Mas eu tô muito mole mesmo, chega aqui um viado metido a machão e não quer pagar pelo meu trabalho. Eu sou um artista... Eu então caprichei no olhar de assassino e disse: - Você me chamou de que otário? - De viado, seu fresco arrombado, eu vi o teu cu e vi também o pau da Lola que é o travesti mais escroto da cidade, tanto que mandou tatuar no pau... Eu então dei um pinote, e tentei sair correndo, mas o Marcão me deu um ponta pé e foi me rebocando até a rua e gritando pra quem quisesse ouvir: - Esse viadinho aqui tatuou um beija-flor no furico e não quis pagar. O mundo então parou para rir de mim, até mesmo duas crentes, desta de saía, caíram na gargalhada. Não preciso dizer que outra vez corri cem metros em menos de dez segundos.